Com Ciência
O que revela o homem? A bondade, o respeito, a tolerância, o caráter, o amor. Principalmente o caráter e o amor, essências do homem de verdade. Isso é o que importa.
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Quem me pariu foi o ventre de um navio
Quem me ouviu foi o vento no vazio
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Vou aprender a ler
Pra ensinar os meus camaradas!
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O sobrado de mamãe é debaixo d'água
O sobrado de mamãe é debaixo d'água
Debaixo d'água, por cima da areia
Tem ouro, tem prata
Tem diamante que nos "alumeia"
Tem ouro, tem prata
Tem diamante que nos "alumeia"
O sobrado de mamãe é debaixo d'água
O sobrado de mamãe é debaixo d'água
Debaixo d'água, por cima da areia
Tem ouro, tem prata
Tem diamante que nos "alumeia"
Tem ouro, tem prata
Tem diamante que nos "alumeia"
(Trechos de ‘Yáyá Massemba’ e ‘Cantiga pra Janaina’ de Brasileirinho, da Bethania).
Escrito por Guto às 17h24
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Poema para seu domingo
É da cidade mineira de Cataguases, a poeta que tenho para este domingo de dezembro. Seu nome é Celina Ferreira e ela nasceu naquela cidade, berço de grandes poetas, em 1928. Além de poeta, ela também foi redatora da rádio MEC e exerceu o jornalismo, no Rio de Janeiro, onde vive atualmente.
Celina é autora de um dos primeiros poemas de que tenho lembrança de ter lido. Ele estava num livro da escola primária. Chama-se ‘Acalanto’ e eu me lembro de alguns versos: ‘meu filho me confessou / baixinho de se entender / ele quer ser marinheiro / um dia, quando crescer... ’. É que a poeta escreveu também para crianças e posso dizer que ela foi uma das responsáveis pelo meu amor pela poesia. Ela e Cecília Meireles, duas fadas que instigaram meu coração infantil e me levaram a ver poesia nas coisas, desde sempre.
A poesia de Celina é simples, sem rebuscamentos ou floreios e isso é mais do que maravilhoso, pois as coisas simples são geralmente as mais belas. A beleza está na forma de dizer, no jeito de perceber, na forma de ver do poeta. E esse sentimento, esse olhar, é o que ilumina os seus versos. Percebo neles o olhar de uma mulher que observa tudo, que sente a beleza do dia-a-dia: as coisas da natureza, as coisas do amor, as questões existenciais, o medo, a coragem, o desafio...: ‘sondar a possibilidade do salto e a profundidade do abismo...’ ela diz em “Salto Moral”, poema que publiquei neste blog em 30/07/04. A solidão também é um tema que perpassa toda a sua poética. A solidão do eu, a solidão do outro que há em mim, a solidão especular, do outro Eu, do duplo. A solidão transfigurada em flor...
‘Flor Sozinha
Que flor é aquela
na beira do rio ?
Ninguém a descobre
na beira do rio.
A flor é sozinha,
parece comigo.
Na beira da vida
também vivo só’.
Seus versos são assim, puros, delicados. Sua tristeza, doce. Deixo para que leiam hoje este poeminha que amo, por sua beleza, sua feminilidade, sua simplicidade. São versos melodiosos, singelos, bons para serem lidos em voz alta, devagar, saboreando bem as palavras. É uma dica. Fiquemos, pois, com os versos macios e plenos de romantismo de Celina:
Ele me beija tão manso
Ele me beija tão manso
que eu penso tudo: cascatas
brotando dentro de mim.
Penso flores, penso musgo,
pedrinhas claras, redondas.
rolando dentro de mim.
Penso nuvens transparentes,
areias brancas, desertos,
mares longínquos de mim.
Ele me beija tão manso
que me perco no meu mundo
tão pequeno e tão sem fim!
(Celina Ferreira)
Escrito por Guto às 02h21
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Relendo, na manhã de chuva
“As Imagens”
IMAGEM: No terreno amoroso, as feridas mais profundas são provocadas mais pelo que se vê que pelo que se sabe.
1. (“De repente, quando voltava do vestiário, ele os vê conversando carinhosamente, inclinados um para o outro.”)
A imagem se destaca; ela é pura e clara como uma letra: é a letra daquilo que me faz mal. Precisa, completa, caprichada, definitiva, ela não deixa lugar para mim: sou excluído como o sou da cena primitiva, que talvez só exista durante o tempo em que ficou destacada pelo coritorno da fechadura. Eis então, finalmente, a definição da imagem, de toda imagem: a imagem é aquilo de que sou excluído. Ao contrario desses desenhos-charada, onde o caçador está secretamente desenhado na confusão do arvoredo, eu não estou na cena: a imagem não tem enigma.
2. A imagem é peremptória, ela tem sempre a última palavra; nenhum conhecimento pode contradizê-la, ajeitá-la, torná-la sutil. Wether sabe muito bem que Charlotte está prometida a Albert, e, no entanto, ele sofre apenas vagamente; mas “quando Albert a abraça pela cintura esbelta um arrepio lhe corre por todo o corpo”. Sei bem que Charlotte não me pertence, diz a razão de Werther, mas contudo, Albert a rouba de mim, diz a imagem que ele tem diante dos olhos.
3. As imagens das quais sou excluído me são cruéis: mas às vezes também (reviravolta) fico preso na imagem. Ao me afastar da calçada de um café onde tenho que deixar o outro acompanhado, eu me vejo indo embora sozinho, andando, meio abatido, pela rua deserta. Converti minha exclusão em imagem. Essa imagem, onde minha ausência está presa como num espelho, é uma imagem triste.
Uma pintura romântica mostra, sob uma luz polarizada, um amontoado de destroços frios: nenhum homem, nenhum objeto nesse espaço desolado; mas, por isso mesmo, por pouco que eu esteja tomado pela tristeza amorosa, esse vazio pede que eu me projete nele; me vejo como um boneco, sentado sobre um dos blocos, abandonado para sempre. “Estou com frio, diz o enamorado, voltemos”, mas não há nenhuma estrada, o barco está quebrado. Existe um frio especial do enamorado: friozinho do bebê (seja do homem, ou do animal) que precisa de calor materno.
4. O que me fere são as formas da relação, suas imagens; ou melhor, aquilo que os outros chamam de forma, eu o sinto como força. A imagem – assim como o exemplo para o obsessivo – é a própria coisa . O enamorado é, portanto, artista, e seu mundo é um mundo invertido, pois nele toda imagem é seu próprio fim (nada além da imagem).
De: Roland Barthes em: ‘Fragmentos de Um discurso Amoroso’.
Escrito por Guto às 12h24
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Poema para seu domingo
Lembro-me que era maio, perto do dia das mães, quando tive o meu encontro com Adélia Prado, minha poeta deste domingo. Aconteceu que, lendo avisos no mural da faculdade, deparei-me com os versinhos singelos: “minha mãe cozinhava exatamente: / arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas / mas cantava”. Longe de minha mãe, os versos mexeram comigo e ficaram na minha cabeça como um mantra. A partir dali o mundo de Adélia se descortinaria para mim.
Adélia Prado nasceu no dia 13 de dezembro de 1935, na cidade mineira de Divinópolis e ali vive até hoje, ao lado de seu marido Zé, amor de sua vida. Ela se formou em Filosofia no inicio da década de 70 e foi por essa época que descobriu sua poesia como uma coisa sua, diferenciada enfim da literatura que a influenciava. De ‘sua turma’, como ela diz, que seria a escrita de Drummond, Clarice, Guimarães Rosa. Assim, enviou poemas a Affonso Romano de Sant’anna, que os mostrou a Drummond, que por sua vez sugeriu a uma editora a publicação de seu primeiro livro, o “Bagagem”.
A poesia de Adélia, em minha forma de ver, revela a sua visão do cotidiano, de suas vivencias, de uma forma tão linda que toca o divino. A poesia está em tudo, é um dom dado por Deus, uma paixão que pode vir e pode faltar, como são as paixões:
‘Paixão
De vez em quando Deus me tira a poesia olho pedra, vejo pedra mesmo’.
A mãe, o pai, familiares, conhecidos, o marido, a infância, o sonho, a fé, o mundo interior e exterior se exprimem na poesia desta intelectual que é mãe, esposa, amiga. Sua sensibilidade poética abstrai do cotidiano seus versos magistrais, que se nutrem de tudo que a vida lhes oferece. Sobretudo a fé e o amor.
Entre os meus livros de cabeceira há dois livrinhos especiais para mim. E são ambos de Adélia. ‘Bagagem’ e ‘Oráculos de Maio’ são duas obras primas às quais recorro sempre, em todos os momentos da minha vida. São os meus ‘evangelhos’, já que não sou de ler a bíblia. E tenho com a poesia de Adélia Prado essa coisa mística que me alenta e me fortalece. A poeta é católica e sua fé perpassa toda a sua obra e me toca o coração. Ela é minha teologia. A propósito, ela tem um poema chamado Teologal que mostra bem isso: ‘Agora é definitivo: / uma rosa é mais que uma rosa. / Não há como deserdá-la / de seu destino arquetípico. / Poetas que vão nascer / passarão noites em claro / rendidos à forma prima: / a rosa é mística’.
Adélia Prado me acompanha também neste blog, sempre me inspira, e muitas vezes a tenho citado por aqui. E são vários poemas a enriquecer este meu espaço. Adélia é lírica, é bíblica, é uma deusa para meus dias melancólicos de domingo. Não escolhi o poema para hoje. Seria difícil para mim, já que é tudo tão perfeito. Preferi então abrir, ao acaso, o ‘Bagagem’ (como costumam fazer os crentes com as escrituras sagradas), e foi na pagina 82, onde encontrei esta maravilha, que compartilho com todos:
A Serenata
Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou viro santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
-- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
(Adélia Prado)
Escrito por Guto às 01h37
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O amor de ontem, de hoje, de sempre - 2
Quando dona Letícia morreu, passada dos 80, a vizinha disse ao vê-la, dormindo serena em seu caixão ornado com flores brancas: -- deveriam tê-la coberto com um manto branco como o de Maria, pois ela era pura, morreu virgem, nunca teve homem...
Ela não conheceu um homem no sentido bíblico, mas teve um amor que muito poucos em minha cidade se lembrariam. Um jovem soldado que, num entardecer outonal, sentados na grama do parque municipal, por um instante breve, tocou seus lábios e depois, com medo de desonrá-la pela ousadia, pediu sua mão e dela ficou noivo por dois anos.
Quando foi transferido para uma cidade vizinha, o noivo foi escasseando as visitas, até que um dia apareceu para dizer que conhecera outra senhorita, com quem simpatizara e terminou, sem muito rodeio, o noivado.
Dona Letícia nunca mais teve vida social. Há não ser pelas idas constantes à missa, não saiu mais de casa.
Lendo, nas paginas de fofocas, o barraco do final de namoro da atriz Luana Piovani por quem, aliás, tenho uma grande admiração, com o Dado Dollabella, por quem, aliás, não tenho admiração alguma; lembrei-me dessa antiga senhora, do respeito que todos em minha rua tinham por ela, de seu carisma. Era como uma grande trágica, uma atriz de alto drama, quando entrava pela igreja com seu terço na mão e com o véu na cabeça.
Em outros tempos terminar uma relação amorosa presumia um período de luto, que podia durar até a vida inteira. Uma vida, como no caso de Dona Letícia. Nos dias atuais, uma relação de amor dura o período de um barraco. Acabou a briga, acabou o amor. Luana se diverte lépida e fagueira. E segundo informação de uma colega de trabalho, já está de namorado novo.
Dona Letícia, antes, terá sido feliz em sua vida de renuncias? Luana Piovani, hoje, será feliz nessa vida de superfície?
* * * * * * * *
Drama Seco
O noivo desmanchou o casamento.
Que será da noiva – toma hábito
ou se consagra à renda de bilro para sempre?
Tranca-se ao jeito das viúvas trágicas.
O noivo fica noivo novamente,
de outra moça, em outra rua.
A noiva antiga que dirá
em seu quartinho negro, à hora em que...?
À hora em que
passar a pé
o noivo com
seu cortejo, braço dado a braço dado,
rumo da noiva nova,
diz-que da antiga casa de noivado
a água descerá, em punição.
Lá vai o cortejo
todo ressabiado,
terno noivo
terno novo
preto de medo,
vestido novo
branco de medo,
olho no medo
no céu da casa.
Todas as janelas secamente fechadas,
sequer uma lágrima
pinga na lapela do noivo.
(Carlos Drummond de Andrade)
Escrito por Guto às 11h42
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