Poema para seu Domingo
Para este domingo trago um poeta do Romantismo Português. Seu nome é João Batista Silva Leitão de Almeida Garrett, ou apenas Almeida Garrett. Ele nasceu no Porto, em 04 de fevereiro de 1799, onde passou a infância. Estudou Direito em Coimbra e, enquanto estudava, envolveu-se em política e em poesia.
Aos vinte anos publicou seu poema “O retrato de Vênus” e esses primeiros versos escandalizaram a sociedade que o consideraram obscenos, imorais e materialistas demais. Envolvido em revoluções políticas, o nosso liberal poeta exilou-se na Europa, logo depois de formado. Lá, influenciado por Byron, escreveu os primeiros poemas do movimento romântico português. Nos anos 30 retornou a Portugal onde exerceu diversos cargos políticos ao mesmo tempo em que impulsionou a cena teatral, com a criação do Conservatório de Arte Dramática, inaugurou teatros, promovendo peças e renovando a linguagem teatral introduzindo temas próximos ao país, mais naturais e menos formais.
Os poemas de Garrett embora tenham o rebuscamento e o tom do discurso, inovam ao falar de temas simples, amores, paixões exacerbadas sem a preocupação excessiva com métrica ou rimas, mas com o ritmo e a sonoridade. Seu estilo abriu o caminho para os novos poetas românticos de seu país.
Na vida pessoal, nosso Garrett também foi bastante inovador. Tendo sido um jovem revolucionário, tornou-se, na maturidade, um homem da vida social, elegante, sempre bem trajado, sempre apaixonado. Teve muitos amores a acompanhá-lo pelos salões das noites lusitanas. Nosso poeta morreu no dia 19 de dezembro de 1854, em Lisboa, vitimado por um câncer hepático.
Para hoje havia pensado no poema “Este Inferno de Amar”, ultra-romântico e cheio de arroubos apaixonados, mas decidi-me agora por outro que gosto muito. O poema me dá uma sensação de rito de passagem, de uma fase de vôos intensos e sonhos para um encontro com a realidade, o chão duro e frio da vida real. Espero que apreciem como eu.
As Minhas Asas
Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.
Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.
Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores...
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.
E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram...
Nunca mais voei ao céu.
(Almeida Garrett)
Escrito por Guto às 01h34
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Sonhos, noites e trovões (um post em dois tempos*)
“Nas noites estranhamente secas deste setembro tudo era expectativa e tudo esperava. Tudo era um vir a ser. Mas aquele sonho não se realizou e tudo é árido agora. Tudo é seco como a noite com baixíssima umidade do ar em minha cidade. Oh, é tão triste ver sucumbir um sonho... Fica uma sensação dolorida de que tudo nesta vida é para dar errado, que a (minha) vida não presta!
Estarei fadado ao fracasso? Pergunto ao meu coração frustrado e oprimido. Mas ele não me responde, porque os corações são apenas músculos que a gente, em nossa fantasia, imagina e acredita que seja responsável e guia de nossos sentimentos. Sentimental, eu teimo em me emocionar, ao invés de racionalizar e ter objetividade mental. Jamais a racionalidade, jamais um pensamento Iluminista. Tudo é esse romantismo fora de propósito. Nada pode dar certo mesmo!
Faz tempo que não chovia, mas hoje, agora mesmo, repentina e surpreendentemente, caiu a chuva. Uma tempestade que veio cheia de fúria e lavou a cidade. Trovões aceleraram meu coração machucado. Raios rasgaram o céu e cortaram os fios de luz, trazendo a noite impiedosa para minha casa às escuras. Tomado pela nostalgia voltei às noites da minha infância, aos meus medos infantis. Cresci! Hoje já não tenho nenhum receio do escuro. Apenas uma melancolia tênue que me invade nesta noite em que penumbra e chuva me invadem por fora e por dentro. Os medos agora são outros, mais consistentes, mais fortes, mas não saberia dizer com certeza até que ponto são reais. Medos são fantasmas que, como ocorre comigo nesta noite, agora, neste momento mesmo, oprimem, assustam, impedem de dar o próximo passo...
Por agora, acender mais uma vela para que seja feita a luz e... esperar (enquanto escrevo estas palavras de auto-conforto).
Balada do lado sem luz
O mundo da sombra, caverna escondida
Onde a luz da vida foi quase apagada
O mundo da sombra, região do escuro
Do coração duro, da alma abalada, abalada
Hoje eu canto a balada do lado sem luz
Subterrâneos gelados do eterno esperar
Pelo amor, pelo pão, pela libertação
Pela paz, pelo ar, pelo mar
Navegar, descobrir outro dia, outro sol
Hoje eu canto a balada do lado sem luz
A quem não foi permitido viver feliz e cantar
Como eu
Ouça aquele que vive do lado sem luz
O meu canto é a confirmação da promessa que diz
Que haverá esperança enquanto houver
Um canto mais feliz
Como eu gosto de cantar
Como eu prefiro cantar
Como eu costumo cantar
Como eu gosto de cantar
Quando não tão a balada, a balada, a balada
Do lado sem luz...
(Gilberto Gil)
*enquanto escrevia este post no último sábado à noite, a queda de energia provocada pela chuva interrompeu meu momento. Continuei o texto com papel e lápis e hoje resolvi publicá-lo.
Escrito por Guto às 21h01
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Divagações no Dia do Psicólogo
Um dia a gente sente que não dá mais conta de seguir em frente sem ajuda. E não adianta mais ligar para aquele amigo (a quem se fala tudo) e se abrir com sinceridade e chorar todas as mágoas possíveis e imagináveis. Não vai resolver. É bom, dá uma força e fortalece momentaneamente, porque ficamos com o nosso ego massageado, tendo em vista que o amigo certamente nos colocará pra cima, concordará com tudo o que dissermos e nos dará total razão para nossas contrariedades. Mas não vai resolver.
Fato: o amigo a quem contamos tudo, perto de quem não temos vergonha de chorar nossas misérias e expor nossas fraquezas nos ama. Ele quer a nossa felicidade para que possa ser feliz também.
A percepção de que o desabafo feito ao amigo foi produtiva não durará por muito tempo, cairá por terra no momento em que a gente constatar que tudo continua igual, nossas atitudes as mesmas, nossa postura diante das dificuldades inalterada. Nosso sofrimento na mesma intensidade.
Mas existe uma pessoa que não nos ama, que não está nem aí pra o que fazemos da nossa vida, para as nossas escolhas, para o que teríamos como ideal de felicidade. Essa pessoa existe para nos ouvir, nos refletir, nos colocar diante de nós mesmos. Essa pessoa existe para colocar a luz no ponto certo. Para apontar para onde deve seguir o nosso olhar. Essa pessoa é um profissional. Um profissional psi.
Nosso amigo nos ama. O psicólogo não. Eis a grande diferença. O psicólogo existe para nos fazer sofrer, para nos fazer mexer nas feridas. Ele nos leva a nos abrirmos aos sofrimentos. E assim, aprendermos a lidar com eles. O psicólogo não nos ama e nós também não o amamos. Pelo menos ao iniciar o jogo. Depois todos os sentimentos estarão disponíveis e poderão aflorar no set mágico que se instalará na relação. E é bom que surjam, para que sejam reconhecidos todos os desejos e domados todos os fantasmas.
Que bom que os profissionais psi, existem. Muitos parabéns para eles no seu dia. Que bom saber que eles estão por aí, urdindo a vida nos consultórios da cidade.
Fresta
Em meus momentos escuros Em que em mim não há ninguém, E tudo é névoas e muros Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte De onde em mim sou aterrado, Vejo o longínquo horizonte Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço, E, ainda que seja ilusão O exterior em que me esqueço, Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
(Fernando Pessoa)
Escrito por Guto às 15h44
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Poema para seu domingo
Neste domingo queria poemas de amor. Poemas de amor e saudade. Quem poderia escolher se não uma mulher, afinal são elas as mestras na arte de falar do amor? Assim, trago a poetisa paulista Adelaide, ou Yde Schloenbach Blumenschein que ficou conhecida como a ‘poetisa do amor’. Ela nasceu em São Paulo no dia 26 de Maio de 1882 e escreveu seus primeiros versos aos 13 anos de idade. A partir daí esteve sempre ligada à literatura. Estudou várias línguas, inclusive esteve por um período estudando na Alemanha. Em 1936 criou, com amigos literatos, um clube de poesia em sua casa, local de reunião de poetas, denominado ‘Casa do Poeta Lampião de Gás’.
Mulher apaixonada, ela revolucionou costumes. Desquitou-se do marido numa época em que os casamentos tinham obrigatoriamente de durar para sempre. Sua independência, aliada a uma beleza singular, incomodava os familiares, que não aceitavam seu estilo de vida. Depois de separada ela passou a viver sozinha, ela fumava, ela bebia, ela recebia amigos para saraus em sua casa, ela escrevia sobre sentimentos que as mulheres não ousariam revelar, ela vivia. Isso, claro, em sua época perturbava os mais tradicionais e familiares e amigos tinham dificuldade de aceitar o seu modo de ser.
Sua poesia refletia seu modo de viver e sua independência. Ela falou de amor e deixou que seus sentimentos fluíssem sem medo. Se em algumas trovas o sentimento romântico surgia puro e singelo, em seus poemas e sonetos o amor foi exposto realisticamente, cheio de paixão e desejo. Ela descreveu sentimentos de amor sem medida, sem compromisso, o que deve ter realmente chocado os mais convencionais. Como nos versos do soneto ‘Vertigem’, que ela fala de uma relação de uma semana, de uma sensação apaixonada e sem nenhum compromisso com o compromisso: ‘Uma semana só... No meu caminho / um vislumbre de sol e de carinho: / uma sombra, talvez, na tua estrada... // Sete dias ardentes de Novembro... / Deves ter esquecido. E eu só me lembro / que nunca fui com tanto amor beijada!’.
Yde morreu em conseqüência de um ataque cardíaco, no dia 14 de março de 1963, numa madrugada, em sua casa. Ela teve uma vida longa e profícua. Foram 81 anos de vida vivida à sua maneira, sem se ligar a convenções e buscando somente ser feliz. E foi!
E, para este domingo, deixo seu poema de exaltação a um amor, que mais me agrada, entre os que conheço da poeta. A princípio inocente e romântico, ele vai num crescendo até atingir o clima apoteótico, erótico e sensual do amor que é desejo e sonho e ilusão de completude. Vejam:
Exaltação
Olhas nos olhos meus. E eu vejo neste instante
toda a terra subir a um céu que desconheço.
Olho nos olhos teus. E fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contem, esqueço.
Sorris... e, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas... ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E neste beijo grande
-- como uma flor que ao sol desabrocha e se espande -- ,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o seu beijo... o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
(Yde Schloenbach Blumenschein)
Escrito por Guto às 02h27
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Marcas de pele e alma
Olha a própria face refletida no espelho do banheiro e sente preguiça de se barbear. Sorri com tristeza e melancolia enquanto observa as marcas do tempo. Os dedos tocam de leve os pés de galinha que começam a surgir ao redor dos olhos, deslizam pelos sulcos na testa... ao redor da boca... nos lábios ainda ressecados. As mãos em concha transbordam a água gelada que sai da torneira. Fecha os olhos e leva as mãos ao rosto, sentindo a água fria na pele cansada.
Com o rosto molhado abre os olhos, mira-se no espelho e sorri. Os olhos adquirem um brilho antigo. O menino está ali, naqueles olhos vivos, prontos pra encarar um novo dia. O menino que foi, que de alguma forma ainda é. A saudade mais forte, a saudade de si mesmo, de um tempo em que se acreditava mais, se sonhava mais, se amava mais. De um tempo em que tudo tinha urgência, mas tudo era eternidade. A lembrança do tempo passado, do tempo que se faz presente, que chega junto com o claridade do sol da manhã...
Um outro tempo, uma outra vida, algum lugar, alguma aventura, alguma paisagem, alguém...
Pra Te Lembrar
O que é que eu vou fazer pra te esquecer
Sempre que já nem me lembro
Lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar
Como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nem um adeus pode apagar
O que é que eu vou fazer pra te deixar
Sempre que eu apresso o passo
Passas por mim
E um silêncio teu me pede pra voltar
Ao te ver seguindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nem um adeus pode apagar.
O que é que eu vou fazer pra te lembrar
Como tantos que eu conheço
E esqueço de amar
Em que espelho teu
Sou eu que vou estar
A te ver sorrindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nem um adeus pode apagar.
(Nei Lisboa)
Escrito por Guto às 11h57
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